Interesse geopatrimonial

Introdução

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), define o património geológico como a variedade de elementos litológicos, fósseis, minerais e outras estruturas geológicas que, pela sua importância, representam um bem comum da humanidade e que deve ser preservado para futuras gerações.

Em Portugal, o património geológico tem sido subvalorizado, em especial quando comparado com outros patrimónios mais reconhecidos, tais como o biológico e o histórico. Este facto está diretamente relacionado com a pouca importância atribuída a este tema pela população em geral, e resulta do desconhecimento geral (Brilha & Galopim de Carvalho, 2010). A contínua expansão de infraestruturas e outras actividades antrópicas, colocam com frequência o património geológico em risco, através da destruição ou ocultação de afloramentos e outras estruturas geológicas importantes para o entendimento da história do nosso planeta e da vida que nele habita. As jazidas devónicas, aqui abordadas, infelizmente não fogem a esta regra.  Por esta razão, pretende-se destacar esses locais da Zona Centro-Ibérica, fornecendo elementos para a possível definição de geosítios, e para a divulgação dos mesmos e do seu conteúdo paleontológico. Desta forma, tornar-se-ão ferramentas didáticas de educação no ensino das geociências e referências para o geoturismo, ajudando até a divulgar as próprias localidades onde se encontram inseridos, à semelhança de Arouca, que se tornou famosa pelas suas trilobites do Ordovícico, ou da Lourinhã pelos seus dinossauros do Jurássico.

Preservação das jazidas

Os afloramentos aqui abordados, correspondem a pequenas áreas sobretudo em zonas de corte de estrada ou caminhos em floresta, com exceção da jazida junto à aldeia de Dornes que se encontra na margem do rio Zêzere. Apresentam potencialidade científica, didática e até mesmo turística. Isto deve-se á existencia de diverso conteúdo paleontológico, assim como à sua inserção no contexto geológico envolvente. As rochas do Sistema Devónico, são escassas em território nacional, torna ainda mais importante a preservação destes locais. A transmissão de conhecimento relativo a este assunto, começa por sinalizar os respectivos locais com painéis que identifiquem e descrevam cada geosítio a nivel de enquadramento geológico, litologias e tipos de fósseis e posteriormente integrar os mesmos, numa rota que envolva estes locais e, eventualmente, de outros Períodos da mesma área (uma rota do Paleozóico). Os afloramentos e geologia envolventes, irão proporcionar aos visitantes um enquadramento dos afloramentos devónicos e a sua posição geral em relação às estruturas geológicas de maior dimensão em que se encontram inseridos (por exemplo, o afloramento de S. Pedro da Cova integrado no Anticlinal de Valongo).

Aspetos relevantes dos geosítios propostos 

A identificação dos locais e aspetos de valorização dos vários geosítios em questão, é o primeiro passo a dar nesta temática. Estes encontram-se distribuídos por quatro localidades: S. Felix de Laúndos, S. Pedro da Cova, Dornes e Portalegre. Os fatores a ter em conta são a raridade destes afloramentos e o seu conteúdo paleontológico.

  • LAÚNDOS 1

Região: Norte
Município: Póvoa de Varzim
Freguesia: Laúndos
Regime de propriedade: Privado

Figura 1: - Aspeto do afloramento da jazida 1 durante os trabalhos de campo.

Aspetos notáveis
Trata-se de um afloramento representativo de uma Formação estudada desde 1911 e possui uma fauna única no Devónico português que inclui trilobites, filocarídeos, euripterídeos, bivalves, braquiópodes e, principalmente, restos de peixes. Estes últimos são os mais antigos vertebrados conhecidos em solo nacional e por isso são de uma importância extrema. Este afloramento, poderá ser um dos últimos (se não mesmo o único) deste género, pois durante os trabalhos de campo foram levadas a cabo observações na área circundante que não possibilitaram reconhecer outros afloramentos desta Formação, o que realça a necessidade de proteger este local.
Riscos potenciais
O local não se encontra em risco direto, no entanto a ausência de proteção deixa-o vulnerável á recolha não autorizada de fósseis, que por sua vez  pode levar ao desaparecimento de espécimes em coleções privadas e a perda de valor científico dos mesmos, por falta da respetiva informação de proveniência e estratigráfica. A sua localização num terreno privado, deixa-o ainda vulnerável á vontade do proprietário.

  • LAÚNDOS 2

Região: Norte
Município: Póvoa de Varzim
Freguesia: Laúndos
Regime de propriedade: Privado


Figura 2: Aspeto do afloramento da jazida 2 durante os trabalhos de campo.

Aspetos notáveis
Este afloramento contém uma rica paleofauna constituída por trilobites, braquiópodes, tentaculites, crinoides, corais rugosos e tabulados, briozoários e bivalves. Pertence a uma formação devónica da qual já restam poucos afloramentos. Assim, como para a jazida 1 de Laúndos, também aqui se fez observações das áreas circundantes, não tendo sido encontrados outros afloramentos, o que faz com que a sua proteção seja necessária. Nesta jazida foi inclusive descoberta uma nova espécie de coral tabulado do género Pleurodictyum (ainda em fase de estudo), que reforça a importância de preservar este local para futuros estudos. 

Riscos potenciais
Assim como a jazida anterior, também esta não se encontra em risco direto, no entanto, apresenta as mesmas vulnerabilidades. O risco de colheita de fósseis por parte de amadores poderá aqui ser maior devido á abundância de conteúdo paleontológico e das suas respetivas dimensões.
  

  • SÃO PEDRO DA COVA

Região: Norte
Município: Gondomar
Freguesia: São Pedro da Cova
Regime de propriedade: Privado

Figura 3: Afloramento de São Pedro da Cova durante os trabalhos de campo.

Aspetos notáveis
Esta jazida apresenta um conteúdo paleontológico rico, composto por trilobites, braquiópodes, briozoários, corais rugosos e tabulados, bivalves, crinoides, tentaculites e possíveis Phyllocarideos. Destes merece destaque, o crinoide Tiaracrinus que foi descoberto neste local e compõem a nova ocorrência deste género na Península Ibérica, juntamente com um espécime encontrado em Espanha. Este é também o único local conhecido em que surge a trilobite Eocryphops? em Portugal e que corresponde a uma nova ocorrência a nível nacional. Este local, é ainda um dos poucos contendo fósseis, dado que a mancha devónica do Anticlinal de Valongo se encontra deformada, de tal forma que faz com que vários afloramentos sejam estéreis sob ponto de vista paleontológico. Vários afloramentos fossilíferos (tais como os da região de Telheiras, a norte de S. Pedro da Cova) encontram-se ocultos pela urbanização, pelo que se torna importante proteger locais como este. Esta ocorrência vem enriquecer o já valioso património geológico do Anticlinal de Valongo.

Riscos potenciais
O afloramento encontra-se numa plantação de eucaliptos e está dentro do Parque das Serras do Porto, o que, por se tratar de uma área protegida, impede que este local seja ocupado por construções. Apesar disto, este afloramento pode ser também alvo de interesse por parte de colecionadores privados.
 

  • DORNES

Região: Centro
Município: Ferreira do Zêzere
Freguesia: Nossa Senhora do Pranto
Regime de propriedade: Privado

Figura 4:Aspeto das litologias de Dornes.

Aspetos notáveis
Os afloramentos desta região foram alvo de maior número de pesquisas científicas recentes e revelam uma paleofauna constituída sobretudo por braquiópodes, mas que também inclui corais, briozoários, tentaculites e trilobites. Esta fauna é, assim como a dos locais anteriores, muito relevante para a compreensão do Devónico em Portugal e por isso estas ocorrências devem ser inventariadas no geopatrimónio português, e preservadas.

Riscos potenciais
O risco direto é baixo mas pode também sofrer com a colheita indevida de fósseis.

  • PORTALEGRE

Região: Centro
Município: Portalegre
Freguesia: São Julião
Regime de propriedade: Privado

Figura 5: Aspeto das litologias de Portalegre.
Aspetos notáveis
O Devónico nesta região corresponde à maior extensão de litologias deste período e os locais estudados correspondem a uma faixa de estratos muito fossilíferos, com trilobites, braquiópodes, bivalves, tentaculites, crinoides, corais rugosos e tabulados, e briozoários. Nesta jazida foram encontrados fósseis de corais tabulados e rugosos que são novas ocorrências para Portugal e que revelam também a potencialidade destes locais para o desenvolvimento do conhecimento deste Período, em Portugal.

Riscos potenciais
A localização destes afloramentos no Parque Natural da Serra de São Mamede, impede que estes locais sejam destruídos, no entanto também eles estão à mercê de colheitas por parte de amadores que podem privar espécimes do acesso académico.