História da investigação do Devónico em Portugal

O Devónico em Portugal foi descrito inicialmente por Nery Delgado (1835-1908), de onde resulta a descrição das primeiras coleções provinientes do Devónico Inferior de Portalegre.  Este Periodo, foi referido de forma superficial, por Delgado em 1875. O autor só iria fazer referencia de forma substancial, em 1908 na sua clássica obra "Sistema Silúrico de Portugal", onde referiu o Devónico de Portalegre e de Rates e a sua respectiva paleofauna. Uma obra postuma deste autor, publicada em 1910, fala sobre os "Xistos de Nereites" que hoje em dia são considerados em parte do Devónico. 

Figura 1: Joaquim Filipe Nery da Encarnação Delgado (1835-1908) [In Carneiro,2014)].

No inicio do século XX, registam-se vários trabalhos importantes realizados nesta temática. Priem (1911) publicou um importante estudo, onde descreve uma fauna composta por peixes e invertebrados do Devónico de Laúndos, embora os tenha datado do Silúrico na altura. Os espécimes de vertebrados aqui referidos, são os mais antigos conhecidos em Portugal.  Três anos depois, Pruvost realizou um importante estudo sobre o Devónico português. Torres (1929) datou o Devónico de Laúndos do Praguiano/Emsiano, com base em fósseis descobertos pelo mesmo autor. Este Sistema é ainda abordado por Carríngton da Costa (1931), na sua síntese do Paleozóico de Portugal, onde elabora uma compilação da pesquisa efectuada desse período, juntamente com as outras sucessões estratigráficas da referida era.

Carríngton da Costa (1891- 1982) (segundo Soares, 2009)

Já no Devónico de Laúndos, Andrade (1945) descreveu diversos briozoários fenestelídeos e acantoclacídeos.  Um trabalho notável, foi publicado por Mellado & Thadeu (1947), onde é feita a revisão das trilobites do Devónico Inferior de Portugal, com recurso a coleções dos museus das universidades do Porto e de Lisboa, entre outras  instituições. Já na década de 60, Boogaard (1963), estudou a fauna de conodontes do Devónico Superior e Carbonífero Inferior do Sul de Portugal. Uma síntese do Devónico português foi ainda publicada por Teixeira e Thadeu (1967). Perdigão (1967), descreve pela primeira vez o Devónico Médio em Portugal em Portalegre, com base em estudos de braquiópodes pertencentes às coleções dos Serviços Geológicos de Portugal. 

Figura 3: Décio Thadeu (1919- 1995), à esquerda, segundo Aires-Barros, (1997) e Carlos Teixeira (1910- 1982), à direita, segundo Rocha (2009).

No mesmo ano, surgiu uma publicação de Boogaard sobre a geologia de Pomarão, onde existem afloramentos devónicos. Perdigão (1972-73a), estudou também, a estratigrafia e o conteúdo paleontológico de afloramentos do Devónico de Barrancos, auxiliado por Pedro Carreira e Júlio Barroso na colheita de fósseis. Boogaard publicou um trabalho onde descreveu as associações do Devónico Médio, nas proximidades de Montemor-o-Novo, correspondente à primeira parte de uma série de contribuições dedicadas aos conodontes de Portugal e do sudoeste Espanhol. No ano seguinte, Teixeira & Pais estudaram alguns fósseis vegetais provenientes de Bragança e de Alcañices (Zamora, Espanha), chegando à conclusão que apesar da natureza incerta dos espécimes, bastava que se tratasse de plantas vasculares, para que as litologias onde se encontravam preservados, fossem datadas no mínimo do Devónico, pois é neste período que surgem as plantas vasculares. Pereira et al., (1999a), confirmou a idade devónica destes estratos, a partir de estudos palinologicos. Perdigão (1973-1974b), estudou as faunas do Devónico de Portalegre e enfatizou a importância desta mancha de afloramentos. O mesmo autor (1977; 1979), também estudou o Devónico de Laúndos e Dornes, sob o ponto de vista estratigráfico e paleontológico. Entre 1979 e 1981, foram publicadas as primeiras sínteses estratigráficas de conjunto sobre Geologia de Portugal (Ribeiro et al., 1979; Teixeira & Gonçalves,1980; Teixeira, 1981), nas quais o Paleozóico do Maciço Ibérico é abordado em termos das suas unidades constituintes, registo fóssil, tectónica e evolução paleogeográfica, sendo o Devónico também abordado à luz dos conhecimentos da época.Boogaard & Schermerhorn (1981), na sexta parte da sua obra, estudaram faunas de conodontes do Fameniano inferior em Monte do Forno da Cal. No mesmo ano, Freire descreveu resumidamente o Devónico de São Pedro da Cova. Mais tarde, Ribeiro (1983a), estudou relações entre formações devónicas superiores e o Maciço de Évora, em Vendas Novas (Cabrela). A sétima parte da obra de Boogaard, foi publicada no mesmo ano e refere a fauna de conodontes do Frasniano de afloramentos próximos da estação de Cabrela (na linha ferroviária entre Beja e Vendas Novas). Cunha & Oliveira (1989), examinaram palinomorfos do Devónico Superior na região da Mina de S. Domingos. Nos anos 90, Pereira & Meireles (1992) reviram os afloramentos do Paleozóico da Póvoa de Varzim, onde observaram afloramentos do Devónico da Formação de Telheiras, entre outros. Na tese de doutoramento de Couto (1993), encontra-se uma breve descrição e cartografia do Devónico na região de Valongo. Em 1997, Piçarra descobriu a existencia de graptólitos no Devónico Inferior do sinclinal de Terena, em Barrancos. Dois anos depois, novos dados sobre palinomorfos do Devónico Inferior de Barrancos foram fornecidos por Pereira et al. (1999b).

No século XXI registam-se também trabalhos sobre o Devónico em Portugal. Uma revisão das faunas bentónicas do Devónico Médio de Barrancos é publicada por Le Menn et al. (2002). Outros trabalhos diversos foram desde então publicados, com destaque para os estudos palinológicos no Devónico Superior da região do Pulo do Lobo, por Pereira et al. (2006) e Oliveira et al. (2006). Pereira et al. (2007) prosseguiram os estudos de palinomorfos devónicos e carboníferos em vários pontos da Zona Sul Portuguesa. Uma reavaliação das faunas betónicas e palinomorfos em Dornes, atribuídas ao Devónico Inferior, é feita por Gourvennec et al. (2008).

Em 2009, dois novos trabalhos relativos a palinologia devónica foram publicados: Lopes et al. (2009), referente a palinomorfos de uma sequência litológica compreendida entre o Silúrico e o Devónico Inferior, e Pereira et al. (2009) efetuando análises palinostratigráficas em tarolos de sondagem de litologias devónicas do Anticlinal de São Francisco da Serra (região NW da Faixa Piritosa Ibérica) registaram a ocorrência de novos miosporos datados do Givetiano inferior. No final da primeira década de 2000, iniciaram-se estudos referentes aos Calcários de Odivelas, no ocidente da Zona Ossa-Morena, que correspondem a maciços recifais do Devónico Inferior (Machado et al., 2009; Machado, 2010 e posteriormente Oliveira et al., 2019 e Machado et al., 2020b).  Já na região de Dornes, Gourvennec et al. (2010) estudaram novamente as faunas e palinomorfos devónicos. Rocha et al. (2010) adicionaram novos dados biostratigráficos, com recurso a palinomorfos na região de Barrancos. Machado et al. (2011) publicaram ainda um estudo sobre a estratigrafia, palinologia e geoquímica orgânica do Devónico-Carbonífero na unidade de Albergaria-a-Velha. Ainda em 2011, Schemm-Gregory descreveu um novo género e nova espécie de braquiópode (Lusitanispirifer lusitanensis) do Devónico Inferior de Dornes e um estudo sobre braquiópodes e crinoides do Devónico Inferior e Superior de Portalegre, e respetiva biostratigrafia e paleogeografia. No que respeita ao património daquela região, Piçarra (2012), publicou um trabalho sobre a vertente geológica e mineira da região de Barrancos, onde se incluem afloramentos devónicos. Em 2013, Schemm-Gregory e Henriques, descreveram as coleções de braquiópodes devónicos do Museu Geológico de Lisboa e do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.  Ainda em 2013, uma síntese mais actualizada da geologia portuguesa é publicada, e no volume 1 dessa mesma obra são referidas as várias sequências devónicas do país (Dias et. al., 2013; Dias & Basile, 2013). Já em 2014, surgem as publicações de Couto et al. (2014) e Sá et al. (2014), que incluem referências sobre o Devónico do Anticlinal de Valongo.

Mais recentemente, Burrow (2017) reviu os fósseis colhidos e estudados por Priem (1911), em Laúndos e reclassificou alguns fósseis de peixes e de invertebrados. Caprichoso (2019), na sua tese de mestrado, faz uma revisão das trilobites Calymenina do Devónico de Portugal, sugerindo a existência de um género endémico até então desconhecido e de duas novas espécies. Ainda em 2019, no livro “The Geology of Iberia: a geodynamic approach (Volume 2: The Variscan Cycle)”, Gutiérrez-Marco et al. (2019), fazem referência, à sequência devónica na Ibéria, e Oliveira et al. (2019) abordam as bacias sinorogénicas da mesma onde incluem formações devónicas da Zona Ossa-Morena. Machado et al. (2020a), reviu na localidade tipo para a ocorrência dos Calcários de Odivelas, a biostratigrafia de conodontes e palinologia e os dados foram comparados com o que se conhece da macrofauna recifal e suscetibilidade magnética e estratigráfica.

Os afloramentos do Devónico de Portugal, são ainda, referidos em notícias explicativas de várias Cartas Geológicas de Portugal, à escala 1/50 000, como por exemplo as folhas 9-A Póvoa de Varzim (Teixeira et al., 1965); 9-C Porto (Carríngton da Costa & Teixeira, 1957); folha 9-D Penafiel (Medeiros et al., 1980; Lemos de Sousa, 1984), 44-B Barrancos (Perdigão et al., 1982) e 28-A Mação (Romão, 2006), e ainda a Folha 8 à escala 1/200 000 (Oliveira, 1992).